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                                                        "Então dois ossos roídos me assombraram...
                                                        - 'Por ventura haverá quem queira roer-nos?!
                                                        Os vermes já não querem mais comer-nos
                                                        e os formigueiros já nos desprezaram'."
                                                        
                                                                               Augusto dos Anjos

                                                        

Esqueça o tempo, meu leitor, esqueça-o!
Não é prudente, senhor, senhora,
refletir enquanto a clepsidra marca Hora!...

Solitário, fantasmagórico, enfim, louco,
todas em versos ponho as minhas conclusões,
sonhadas, secas, insuficientes...

Homo sapiens? Homo infimus!
Saco de matéria orgânica!
Açucares, água, um tanto de carbono e sorte...

Absorto, olho para o chão vermelho, cheio de coágulos;
Guerras hediondas: Ciência,
Brilhante técnica; será Poder ou Prepotência?

Coadjuvante, homem maldito, no cenário
alegre e findo da Natureza. Verdadeira
Mãe viúva! Até mais: Mãe solteira.

Tantas chagas! meu planeta amigo,
dor, fogo, fim das paisagens;
a Ganância das Viagens...

Vultos velhos vagarosos vagam...
Nuvens variadas de microorganismos,
epidemias: nessas mortes não soarão sinos!...

Alucinógeno ou sonho?
Estou em uma cama – e dopado! –
ou sonho estar em uma cama, também dopado?!

Nessa imensa massa de atroz desgraça,
perambulo, tido por louco doente,
envelhecido cedo, infelizmente,
não tenho sequer minha própria casa!

(Quanto mais procuro o Absurdo,
mais ele se afasta...
Meu intenso desejo de Suicídio,
Minha alienação infantil, já perdida!...)

O homem é assim: cretino, ingrato,
Mas tenho, entretanto, de viver entr'eles;
Com medo, em guarda, sempre.
A Amargura se reflete na pergunta:
"Por que me deste, Grande Mãe, consciência,
se dela me arrependerei a vida inteira?"

05/11/2007
Creative Commons License
Some rights reserved. This work is licensed under a
Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 3.0 License.
:icongeneral-onox:

Author's Comments

O momento em que se reflete sobre o homem.

O momentum... de descoberta, tristeza e - por que não? - alegria. (07/04/2007)

-

A idéia inicial deste poema se deu no dia 21/03, com a leitura da palavra "momentum" em algum lugar qualquer e com minhas comuns leituras de Augusto dos Anjos, grandíssimo poeta brasileiro das primeiras décadas do século XX. O refiz algumas vezes até publicar a primeira, refiz mais algumas até refazê-lo agora; era necessário mais algumas idéias e versos, outras imagens e melhoras na sonoridade e organização das estrofes.

Nesta última versão, como disse baudelaire, "depositei meu ódio, amor e religião (travestida)". Não igualmente, admito, mas dos três há um pouco.

Comentários, todos, são bem-vindos. Obrigado. (11/11/2007)

Comments


love 1 1 joy 1 1 wow 0 0 mad 0 0 sad 0 0 fear 0 0 neutral 0 0
:iconeternalbrighid:
hm posso dar uma dica q eu percebi? xD~
corrige ali "que perante o primeiro vírus de ajoelha." para "que perante o primeiro vírus SE ajoelha."
^^
:iconeinkurogane:
melhor parte: Homo sapiens? Homo infimus!
Saco de matéria orgânica!
Imponente conjunto de células
que perante o primeiro vírus de ajoelha.

^^ :clap: :clap:

--
"All I see is blue in my heart." - X-Japan
:iconlinhas-de-agua:
Porque a consciência faz de nós aquilo que nós somos.
Poema triste, marcado a cadências tristes. Para mim, que estudo química, o poema até ganha outro sentido. Mas alegria? Alegria é coisa que não li aqui. Apenas desapego. E um desapego bem descrito.
Que Homem aprenda a reflectir não na sua matéria orgânica putrefacta mas sim na sua matéria orgânica génica que lhe faz diferente de tudo o resto.

--
Gelo no abraço da Chama
:iconlucid-dreamerz:
por que me deste, minha Mãe, consciência
para ela pesar durante minha vida inteira?

true lol
nice one, doggie
:icongeneral-onox:
ops @.@ isso que dá querer passar rapido demais pro pc >_>

É que eu escrevo no papel mesmo, monto tudo à caneta e passo para o PC depois. Mas sempre acabam acontecendo errinhos, tento passar muito rápido... XD

Mas, obrigado! =)

--
"Oh Satan, prends pitié de ma longue misère!"

- Charles Baudelaire, Les litanies de Satan.
:icongeneral-onox:
Adorei esta também.

Foi uma das partes que menos fiz alterações do original, saiu quase que naturalmente.

--
"Oh Satan, prends pitié de ma longue misère!"

- Charles Baudelaire, Les litanies de Satan.
:icongeneral-onox:
A alegria está no ato de entender a 'parte boa' de ser um "saco de matéria orgânica": você não é e nunca será melhor que os outros; todos voltam ao ciclo da matéria e, deste, nascem seu filho e parentes - talvez tenham vindo de um cão, talvez de um "inferior".

A alegria dele se dá pelo conceito de humildade que está extremamente implícito no texto. O desejo primordial era, sim, explicitar minha ânsia perante minha própria espécie - o Homo sapiens, o suposto "homem sábio".

--
"Oh Satan, prends pitié de ma longue misère!"

- Charles Baudelaire, Les litanies de Satan.
:icongeneral-onox:
Obrigado, Lucas! =D

E este trechinho tá na minha cabeça desde que escrevi. Eu o havia pensado diferente antes, mas saiu assim e achei melhor.

Preciso de tempo para escrever; tenho idéias e projetos semi-montados... mas falta-me tempo. :[

Flvv irmão

--
"Oh Satan, prends pitié de ma longue misère!"

- Charles Baudelaire, Les litanies de Satan.
:iconeinkurogane:
entendo... =D

--
"All I see is blue in my heart." - X-Japan

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April 24, 2007
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